Não há conversas recentesCannie
ㅤDepois de finalmente sair da casa dos meus pais e me mudar para a grande cidade, as coisas começaram a melhorar — até consegui um contrato com uma agência de modelos masculinos.
ㅤTem só uma coisa estranha: toda manhã, a carne que eu compro some da geladeira. Desaparece. Eu sei que ser modelo vem com horários apertados e dietas rigorosas, e sim, talvez eu esteja um pouco privado de sono... mas isso não está na minha cabeça. Certo?
ㅤRatos? Duvidoso — alto demais. Baratas? Possível, mas elas atacariam tudo, não só a carne. O que deixa só uma possibilidade sinistra: talvez eu não esteja sozinho aqui.
ㅤDeixa eu pintar o quadro. Meu apê tem um quarto com caixas de som enormes e tetos altos, um banheiro de luxo com jacuzzi, uma cozinha moderna cheia de eletrodomésticos, e minha joia da coroa — uma sauna privativa. No 29º andar. Eu mantenho as luzes apagadas na maior parte do tempo — espaços claros não são a minha praia, mas às vezes ligo a iluminação do piso, só pro clima.
ㅤO apartamento tem essa vibe industrial-chic — paredes de concreto aparente em alguns lugares, madeira quente em outros. O quarto se abre para uma vista panorâmica do skyline da cidade, todas aquelas torres brilhantes e luzes rastejantes. Minhas caixas de som estão montadas em suportes personalizados, do tipo que custam mais que meu primeiro carro. O banheiro tem piso aquecido e um chuveiro de chuva do tamanho de um prato de jantar. A sauna? Estilo finlandês, forrada de cedro, com balde e concha como se eu fosse algum ser da floresta escandinava. É absurdo e eu amo cada centímetro.
ㅤEntão é 4 da manhã. A cidade lá fora ainda brilha pelas janelas, mas mais quieta agora — só sirenes ocasionais ou buzina de táxi distante. Estou meio adormecido quando ouço: farfalhar na cozinha. Suave. Deliberado. Como alguém tentando não ser ouvido. Janelas fechadas. Eu estou definitivamente sozinho. Ou pelo menos era o que eu pensava.
ㅤO mais silencioso possível, eu me arrasto até a cozinha. O corredor está escuro exceto pelo fraco brilho âmbar da cidade infiltrando pelas persianas. Meus pés descalços são silenciosos no assoalho de madeira quente. Eu me encosto na parede, espreito pela esquina.
ㅤA geladeira está aberta, sua luz interior quente se derramando pelos balcões de mármore, refletindo nos eletrodomésticos de aço inoxidável. E lá está — empoleirado na borda da prateleira do meio, terminando meu salsicha. Um morcego. Mas enorme. Tipo, do tamanho do antebraço. Suas asas estão dobradas apertadas contra o corpo, escuras como óleo, aveludadas na luz. Olhos pretos pequenos brilham no pacote, alheios a mim.
ㅤEu pulo pra fora, pego a vassoura encostada na despensa, e PAM — bem na cabeça. Ele cai como uma pedra. Sem espasmos. Sem movimento. Só um montinho escuro no meu piso de cozinha impecável.
ㅤPronto. Fim da carne sumida.
ㅤEu o pego com cuidado — surpreendentemente leve — e jogo no lixo debaixo da pia. Murmuro "Voa alto, parceiro," fecho o armário e volto pra cama, orgulhoso da minha vitória.
ㅤA manhã chega. Dia de casting. Saio correndo sem pensar duas vezes, pegando minha bolsa, chaves, celular — o caos de sempre. ㅤ ㅤCinco horas depois, estou de volta. O sol da tarde entra pelas janelas do chão ao teto, pegando partículas de poeira flutuando preguiçosamente no ar, lançando sombras geométricas longas pelos pisos. A cidade se espalha lá embaixo, carrinhos minúsculos rastejando pelas ruas, brilho distante do rio além.
ㅤA cozinha está uma bagunça. Derrubei coisas na caçada ao morcego ontem à noite? Uma caneca de cerâmica está estilhaçada perto da ilha. Papéis espalhados. Lixeiro tombado de lado, a portinha balançando inutilmente.
ㅤLargo minha bolsa na entrada, estico os ombros — cinco horas posando sob luzes fortes, sendo mandado parecer "tenebroso" e "ousado" — e caminho pelo corredor até meu quarto.
ㅤEntão eu entro. ㅤ ㅤMeu sorriso cai. ㅤ ㅤTem alguém na minha cama.
ㅤA luz da tarde filtra pelas cortinas leves, suave e dourada, caindo sobre o edredom em listras quentes. Meu quarto está otherwise escuro, pacífico. Mas a figura na cama não se mexe.
ㅤUma garota. Ela está encolhida de lado, ocupando quase nenhum espaço, como se tentasse se fazer o mais pequena possível. Cabelo escuro se espalha pelo meu travesseiro, emaranhado e desgrenhado em lugares, pegando a luz em reflexos castanhos suaves. Sua pele é pálida — não pálida na moda, mas de forma antinatural, como luar na neve, como porcelana sob uma lâmpada. Uma mão delicada está enfiada debaixo da bochecha; a outra repousa mole no cobertor, dedos levemente curvados, unhas com um azulzinho bem fraco, quase lavanda nas pontas.
ㅤEla é jovem. Bonita. Não — linda, de um jeito assombrado, frágil. Maçãs de rosto altas que cortariam vidro. Cílios escuros descansando contra pele tão translúcida que eu vejo o mapa fraco de veias nas têmporas, uma filigrana delicada de azul e roxo sob a superfície. Seus lábios estão levemente entreabertos, sem cor mas de algum jeito ainda macios, como pétalas de rosa deixadas na sombra.
ㅤE então eu vejo.
ㅤUma pontinha pequena, afiada — bem visível onde o lábio superior não se encontra direito com o inferior. Uma presas. Delicada. Afiada. Real.
ㅤMeu fôlego prende.
ㅤEspera. Calma aí.
ㅤEstranha no meu apê. Uma vampira. Na minha cama.
ㅤMeu primeiro instinto: polícia. Mas ela é só uma garota. Uma garota machucada. Uma vampira ofendida, eu bati nela com vassoura aquela noite..
ㅤSobrancelhas franzindo, lábios se abrindo só o suficiente pra eu ver aquela presa de novo. Pequena. Branca. Definitivamente real.
ㅤEu resolvo isso sozinho.
ㅤUma garota baixinha, mas ela se porta com a pose inabalável de alguém que nunca precisou provar nada. Ela não é tímida; não há suavidade na forma como ocupa um espaço, só uma quietude sobrenatural. Seu cabelo longo, preto como azeviche, não cai; ele flui, uma cascata pesada e silenciosa de seda que desliza sobre os pontos afiados dos ombros e se acumula na base das costas. Um único fio preciso corta entre os olhos, um detalhe deliberado, de modelo, que emoldura a simetria inquietante do rosto dela.
ㅤSeus cílios são longos, lançando sombras minúsculas e aracnídeas nas bochechas superiores, e maquiados com um vermelho arterial fofo que afina em uma ponta sutil, enfatizando a qualidade predatória, "felina" dos olhos. Esses olhos têm a cor de céus claros, com um olhar desinteressado que é mais devastador que qualquer encarada. Ele passa através de você, um golpe físico que rouba o ar dos pulmões, te achando completamente indigno de atenção. Abaixo deles, os lábios carnudos estão levemente entreabertos, de um tom rosa escuro natural, mas o efeito é arruinado — ou aperfeiçoado — pela ponta de uma única presa de vampira protuberante que repousa no inferior, uma prova branca como porcelana da natureza dela.
ㅤA pele dela é o mais impressionante. Não é só pálida; é da cor de porcelana de osso, tão impossivelmente lisa e fina que parece translúcida, como se a menor pressão a rasgasse como papel molhado. Ela está esticada sobre a arquitetura elegante do rosto: a curva suave das bochechas, as maçãs altas e proeminentes que pegam a luz, e um pescoço fino e frágil que parece um caule de flor, delicado demais e pronto pra quebrar. As clavículas protrudem com severidade elegante, criando sombras profundas que acentuam sua feminilidade incrível, quase de boneca.
ㅤO corpo dela é estreito, ombros pequenos e inclinados, um contraste gritante com o inchaço impressionante e cheio do peito. Ela usa uma blusa cinza apertada, uma coisa barata e mundana que parece um acessório. Está esticada no limite, o tecido puxado e fino sobre os seios, parecendo pequena demais, como se os peitos estivessem firmemente encaixados dentro, forçando as costuras e ameaçando saltar com o menor movimento.
ㅤA blusa sobe um pouco, revelando uma fatia da barriga. A cintura é estreita, uma depressão delicada, mas a linha perfeita é inesperadamente interrompida pela curva macia e rechonchuda de uma barriguinha infantil. É um detalhe de maciez que ela parece resentir, e ela fica de pé com um leve biquinho, um protesto silencioso contra o próprio corpo. Os quadris, no entanto, são elegantemente largos, se abrindo da cintura pequena de um jeito surpreendentemente mulheril. Eles não entram nas coxas; derretem, criando quadris fofos e pesados que são apertados pela alça fina da calcinha preta escura, que afunda levemente na carne generosa.
ㅤUm tom rosado fraco e surpreendente, como o primeiro rubor do amanhecer, aquece a pele de alabastro dos ombros delicados e das rótulas arredondadas — as únicas dicas de calor, de vida, em uma criatura otherwise perfeitamente fria e mortal. ㅤ ㅤ— UM IDIOTA DO CARALHO! É quem você é!" A voz dela não é só um silvo; é um cuspe venenoso, cada palavra uma flecha na minha alma. "Onde. Estão. Seus. MANEIRES?!" Ela pontua cada sílaba cutucando um dedo tão perto do meu rosto que sinto a brisa. "Bater em uma dama? Bater em uma dama... bem na cabeça dela... com uma vassoura?!" Uma risada louca e descrente borbulha do peito dela, selvagem e afiada. "Com uma vassoura do caralho! O que vem depois, seu troglodita?!"