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O mundo acabou há vinte anos. Não por causa de zumbis. Não por causa de guerra. Um meteorito caiu na Sibéria e liberou criaturas capazes de usar rostos humanos. Elas parecem com seus amigos. Elas soam como sua família. A regra para a sobrevivência é simples: NÃO RESPONDA A ELES.
Do Not Answer Them
Há vinte anos, um meteorito caiu na selva congelada da Sibéria. Quando os cientistas chegaram para estudar o objeto estranho, eles inadvertidamente libertaram algo que levaria a humanidade à beira da extinção. Ninguém sabe o que emergiu da rocha. Alguns os chamam de doppelgängers. Outros os chamam de skinwalkers. Seja o que for, eles usam rostos familiares, imitam vozes familiares e esperam pacientemente que alguém abra uma porta.
A regra para a sobrevivência é simples:
Não lhes respondam.
Simples o suficiente — até perceberes que noventa e nove por cento da humanidade falhou em segui-la. Porque seja o que for essas coisas, elas parecem contigo, agem como tu e podem vir até ti como os teus entes queridos
Nerva
A mulher ruiva apoiou a bochecha na coronha do seu rifle de precisão, com um cigarro pendurado frouxamente nos lábios enquanto observava a cidade lá em baixo através da mira.
Uma cena aparentemente inofensiva desenrolava-se no parque. Uma senhora idosa estava sentada sozinha num banco, a ler um romance gasto.
A mesma página. A mesma postura. Durante sete dias consecutivos.
Nerva exalou uma nuvem de fumo
"Jesus Cristo..."
Baixou a mira e esfregou os olhos.
"Estas coisas estão por todo o lado agora."
O seu olhar percorreu o horizonte.
"Andam por aí como pessoas normais. A fazer compras. Sentadas em cafés. À espera nos paragens de autocarro."
Fez uma pausa.
"É como se nos tivessem substituído e continuado a viver."
Premiu o botão do rádio. Uma breve estática encheu o canal.
Paula
Três segundos depois. Toc. Toc. Toc.
O sinal de verificação combinado.
Momentos depois, Nerva respondeu com três toques seus. Só então Paula falou.
"Recebi. Lima Charlie."
A voz dela crepitou suavemente pelo rádio.
"Sem alterações na barricada do 97.º andar. A patrulha de rotina dos andares 98 a 101 está limpa."
Silêncio.
"O setor ocidental continua calmo."
Nerva
Levantou-se do seu posto no telhado e espreguiçou-se. Os andares superiores do arranha-céus abandonado tinham-se tornado o seu santuário. Quatro andares suspensos acima de uma cidade cheia de pessoas. Ou pelo menos coisas a fingir ser pessoas.
Hoje em dia, ninguém confia num rosto. Ninguém confiava numa voz. Às vezes mal confiavam em si mesmos.
Reparou em ti a aproximar-te e imediatamente sacou da arma de lado. O cano apontava diretamente para o teu peito. Só depois de devolveres o sinal de mão combinado é que ela a baixou.
"Desculpa."
Nerva
Um leve sorriso surgiu no seu rosto.
"Não se pode ser demasiado cuidadoso nestes tempos."
Ofereceu-te um cigarro e sentou-se ao lado do parapeito do telhado. O sol começava a desaparecer no horizonte. A cidade brilhava em tons de ouro. A sombra dela estendia-se longa pelo telhado
Bonita. Cheia de Pessoas. Morta.
"Último pedaço de luz do dia."
Acendeu outro cigarro.
"Queres juntar-te a mim?"
Lá em baixo, milhares de figuras vagueavam pelas ruas.
"Pelo que sabemos, elas ficam dormentes depois de escurecer."
Nerva
Abriu a cabeça negativamente.
"Nunca percebi porquê."
Os olhos dela estreitaram-se enquanto observava as ruas lá em baixo.
"Ou o que elas realmente querem."
Nerva
A alguns quarteirões de distância, um grupo de jovens mulheres jogava voleibol.
A rir. A sorrir. A aplaudir.
Exatamente como tinham estado a fazer nos últimos quatro dias.
Os mesmos movimentos. As mesmas palavras. Os mesmos sorrisos.
Nem uma única expressão tinha mudado. Nerva observava-as.
"Vês aquilo?"
Deixou cair cinza por cima do parapeito.
"Arrepiante como o diabo. É como se estivessem a tentar tanto ser humanas..."
A voz dela desvaneceu-se.
"...mas não percebem o que significa ser humano."
Antes de conseguires responder — O rádio explodiu em estática. Ambos ficaram imóveis.
Paula
"Uh..."
Pela primeira vez no dia, a voz dela soava nervosa.
"Pessoal..."
Uma pausa.
"Podem querer descer cá."
Os três reuniram-se na barricada reforçada que selava o 97.º andar. Camadas de aço soldado cobriam a entrada. Um monitor de segurança mostrava o corredor do outro lado.
E alguém estava lá. Uma jovem mulher. Sangue ensopava uma perna das calças rasgadas. Ela batia desesperadamente contra a porta de metal. Ao lado dela estava uma mulher mais velha, talvez na casa dos quarenta. Nódoas negras escureciam-lhe a garganta.
Ambas pareciam exaustas. Aterrorizadas.
???
A jovem mulher bateu com os punhos contra a barricada.
"Por favor!"
Os olhos dela disparavam repetidamente pelo corredor atrás dela. Como se esperasse que algo aparecesse a qualquer momento.
"Eu sei que há alguém aí!"
Bang.Bang.Bang.
"Por favor deixem-nos entrar!"
A voz dela falhou.
"Nós não somos uma dessas coisas!"
Engoliu em seco.
"Juro por Deus que somos humanos!"
Nerva
A ruiva ergueu imediatamente um dedo aos lábios.
Silêncio. Ninguém falou. Ninguém se mexeu.
O único som era o bater frenético ecoando pelos altifalantes do corredor.
Nerva estudou o monitor. A rapariga ferida. A mulher mais velha. O corredor vazio atrás delas. Depois olhou para Paula. Depois para ti. Lentamente, articulou as palavras.
"O que achas?"
Outro estrondo retumbante abalou a porta. A jovem mulher estava agora a chorar. Atrás dela, o corredor permanecia vazio.
Pelo menos, era o que a câmara mostrava.
E num mundo onde os monstros usavam rostos humanos... Esse era exatamente o problema.