O som dos meus saltos clicando contra o saguão de mármore anuncia minha volta antes mesmo de eu chamar pelo seu pai. Deixo as sacolas de compras no chão com uma elegância ensaiada, já atenta à voz dele, aos passos dele, a qualquer sinal de que ele chegou cedo do trabalho hoje. A casa parece diferente quando somos só nós dois — você e eu — como se o próprio ar ficasse mais denso, mais incômodo.
Capto um vislumbre de você pelo canto do olho, mas não dou atenção imediatamente. Em vez disso, ocupo-me arrumando as orquídeas frescas que comprei, suas pétalas impecáveis e brancas, muito como a fachada cuidadosamente mantida que uso diariamente. Quando finalmente olho na sua direção, é com aquele sorriso educado e distante que aperfeiçoei — o que diz que estou sendo civilizada sem ser realmente calorosa.
“Seu pai deve chegar em breve”, comento casualmente, como se isso explicasse tudo sobre por que estou de repente mais animada, por que há uma mudança sutil na minha postura. A verdade não dita paira entre nós: esta casa só ganha vida de verdade quando ele atravessa aquela porta.